Débora Novaes de Castro
Resenhas, comentários

Vale dos Haicais
De: Débora Novaes de Castro Para: Ronaldo Cagiano
Assunto: Recebimento HAI-KAIS Data: 25/04/95

“... sobre seu livro HAI-KAIS, não poderia deixar de citar TREZE, QUINZE, DEZOITO, VINTE E QUATRO, VINTE E SEIS, VINTE E SETE, E VINTE E OITO... brevidades poéticas, pedaçinhos de sua alma, minúsculos pássaros de luz. A escolha de Bashô, para a abertura do opúsculo, não poderia ser melhor; o hai-kai escolhido, filigrana do mais alto quilate. Trata-se de um livro a ser impresso? Ou é parte de um? Ou o próprio? Não importa. O que se faz real, é a leveza, a finura.
Bem, o que pretendia fazer num futuro próximo, acabei fazendo agora, não resistindo ao apelo dos seus poemas hai-kais. Parabéns.”

Texto enviado a Cyro A. Catta Preta, que tendo retornado, segue novamente em 31 de março de 2003.

Publicação em haicais:
SAZÕES FUGAZES e ROSA ROSÁRIO
de Cyro Armando Catta Preta, 2002
Débora Novaes de Castro

O quê falar sobre tão delicadas imagens que como um pirilampo, à noite no campo não podendo juntar-se às estrelas, emite a sua luz para o nosso encanto e sedução?

Assim, como um espelho a refletir imagens, Haicais SAZÕES FUGAZES e ROSA ROSÁRIO, nos ofertam haicais dispostos em floreiras especiais, constituindo-se nas duas partes da obra:
Na primeira, SAZÕES FUGAZES, sob a égide da natureza, encontramos haicais de canteiros anteriores: MOENDA DOS OLHOS, PALHAS DO TEMPO e FRESTAS, sob a batuta de bambu das quatro estações do ano. Citamos:

em HAICAIS DE PRIMAVERA
Noite. Ao alvejar
o jardim, pé de jasmim
perfuma o luar...
p. 09

em HAICAIS DE VERÃO
Cansaço. Abandono.
O mormaço põe no espaço
bocejos de sono.
p. 24

em HAICAIS DE OUTONO
Ao ar da manhã,
pendentes, sorrindo dentes,
maduras romãs.
p. 43

em HAICAIS DE INVERNO
Meia-noite fria,
a rua agradece a lua
pela companhia.
p. 51

Note-se que nos haicais citados, não há títulos; constituindo-se em quase “exceção” à característica da obra haicaística do autor, em favor da ambientação oriental, dada na Primeira Parte do livro.
Já na Segunda Parte, ROSA ROSÁRIO, há flashes inusitados de rara sensibilidade, levando o leitor à reflexão, conhecimento, ou reconhecimento de registros bíblicos, muito especiais:

Porta estreita
Fácil de adentrar.
Com a luz que vem da cruz
é chegar e entrar...
p. 66

Moisés
Olha o céu, de joelhos:
abre as águas num milagre
ante o Mar Vermelho.
p.88

Nestes dois haicais, os títulos são marcas de introdução ao micropoema, sendo parte integrante de complementação da imagem que sem ele não se completaria.

Em alguns haicais, nota-se também uma certa liberdade, quanto à rima interna do segundo verso, que ora se faz com a 2a. e 7a. sílaba tônica; ora, 1a. e 7a; ora, terceira e 7a. Encontramos também, o haicai com silabação alheatória em um ou outro verso, caracterizando o aspecto “modernidade” na composição dos versos. A exemplo, o belo haicai:

Podada. Ferida.
A roseira fica inteira,
mais florida.
p.11
Sem titulação. Rimas, ao final dos 1o. e 3o. versos. Rimas internas no 2o. verso: 3a. e 7a. sílabas tônicas. O último verso, ou 3o. verso, com três sílabas poéticas.

Finalizando, Cyro Armando Catta Preta, em Haicais SAZÕES FUGAZES e ROSA ROSÁRIO, traz a lume mais uma jóia do seu estojo de haicais.


Débora Novaes de Castro
31 de março, 2003

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