Resenhas, comentários
O haicai breve forma poética de origem japonesa foi introduzido no
Brasil no início do século 20, angariando de pronto uma multidão
de praticantes e estudiosos, seduzidos a princípio pelo desafio de
fazer poesia empregando um suporte minúsculo: três versos com
cinco, sete e cinco sílabas. A popularidade do haicai só cresceu
durante todas estas décadas e em sua militância hoje conta com
entusiastas do porte de Débora Noves de Castro, poeta, escritora e
divulgadora cultural, que acaba de lançar Chão de Pitangas,
coletânea de 270 haicais, com edição a carga da Scortecci
Editora.
Além de autora das coletâneas Soprar das Areias (1987), Aljôfares
(1989), Sementes (1992) e organizadora da antologia Hai-kais ao Sol (vários
autores, 1995), dedica-se desde 1998, à pesquisa acadêmica do
tema que a apaixona, preparando sua dissertação de mestrado
sobre o haicai brasileiro pela Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo. É com base em suas pesquisas que Débora
divide o haicai brasileiro em três vertentes: livres, guilherminianos
e orientais. Esta definição foi pela primeira vez posta em prática
na organização da antologia Hai-kais ao Sol e hoje é
usada em Chão de Pitangas, coletânea da própria autora.
Os conceitos implicados nos haicais guilherminianos e nos haicais orientes
são expostos em pequenos ensaios à guisa de prefácios,
respectivamente preparados por Cyro Armando Catta Preta e Teruko Oda e originariamente
publicado em Hai-kais ao Sol.
Os haicais livres ou modernos seriam aqueles associados à definição
mais abrangente do haicai, qual seja a de um pequeno poema de três versos
(com rima eventual entre o primeiro e o terceiro verso), sem nenhuma outra
preocupação formal e nem mesmo conversando uma contagem silábica
fixa, ao contrário dos dois tipos restantes, presos em grau mais ou
menos rígido a uma estrutura métrica, rítmica e temática,
determinada por valores tradicionais.
Os haicais guilherminianos ou guilherminos devem seu nome a Guilherme de Almeida
(1890-1969), o inventor do formato. São tercetos de cinco-sete-cinco
sílabas, com rima entre o primeiro e o terceiro versos, mais uma rima
interna entre a segunda e a sétima sílabas do segundo verso.
Trata-se de um esquema rígido e precioso, que alguns comentaristas
chegam congnominar, de maneira algo depreciativa, de micro-soneto. Mas longe
de constituir-se em mera curiosidade, o formato conta com cultores fiéis
na comunidade haicaísta.
Já os haicais que Débora Novaes de Castro denomina de orientais
seriam tercetos com cinco-sete-cinco sílabas, tal qual os guilherminianos,
mas compostos expressamente sem rima entre os versos por acreditar-se que,
em sua origem, o haicai não as teria, por serem um elemento inexistente
na tradição poética do Japão. Adicionalmente,
preconiza-se o emprego de um índice sazonal, ou seja, uma palavra ou
expressão que sugira uma das quatro estações do ano,
também consoante à tradição original.
Assim sendo, o haicai de Chão de Pitangas distribui-se por três
seções, cotando 186 haicais livres 23 guilherminianos e 61 orientais,
pelos quais a autora transita com desenvoltura, procurando prestar tributos
aos poetas do passado e do presente que contribuíram para popularizar
esta forma poética. Deixamos amostras de alguns destes poemas:
ainda
que ocaso
o sol do outro lado
rompe em dourados
ponteando
miçangas
louçãs nas claras manhãs
um chão de pitangas
sol
cores e flores
na Festa da Primavera
saia da menina
Chão de Pitangas: São Paulo, Scortecci Editora, 2002, 136 páginas, ISBN 85-7372-809-4.
*Edson
Kenji Iura é haicaísta, membro do grêmio Haicai Ipê
e editor do Caqui – www.kakinet.com.br