Publicado em WWW.RECENTO DAS LETRAS, cópia em 04/01/2004

 

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Haicai/Haikus Polêmicos - De como algo divertido pode se tornar um pesadelo

Caras Poetisas e Caros Poetas

Haicai com título ou sem título?

Haicai com 3 versos, 4, 5, 6?

Não há consenso no mundo inteiro acerca disso.
Aliás, se verificarmos o histórico da introdução dos haicais no Brasil pode-se verificar que há uma tradição maior, mais brasileira em nominá-los do que o contrário.
Eu não me permito ser cerceado por qualquer outra cultura presente no Brasil. Se alguns grupos da vida gostam de rigidez, locupletem-se.
Me baseio no que admiro. O Millôr Fernandes, cujos haicais conheço desde garoto quando lia a revista O Cruzeiro de meu pai, cria poemas Haicai com rimas.
Exemplifico com seus últimos haicais publicados:

Menino chorando
As lágrimas no chão
Vai contando.

Turistas
Viajam
Entre cambistas.

E o medo que mete
Esse espelho
Que não reflete?

Se eu fosse formalista talvez não gostasse das rimas, e até poderia dizer: "que horror!", mas não é o meu caso.

Outro, esse atual, que está na net, o Custodio, não sei se vc conhece, que é hilário também, compõe de forma leve e solta.

Últimos haicais publicados do Custodio [indicado pelo Paulo Franchetti]: http://www.custodio.net/


Sem talento algum
sou fusca metido
a formula um

No meu quarto de manhã
o sol desenha
um mondrian

Fato a fato
a história toda
é um boato


No caminhão da mudança
tem sempre espaço
pra esperança

Sou cachorro sem dono
se você não está
quando telefono

Como vemos, com rimas.

Acrescento a tradução de um poema-haicai de Basho para o inglês:

The first soft snow!
Enough to bend the leaves
Of the jonquil low.

[fácil verificar snow e low]

O site dos Galarzas de Portugal (recomendado pelo Paulo Franchetti, vc deve conhecê-lo, já que tem projeção internacional como Poeta Haicai, vide http://www.kakinet.com) é http://thehaiku.blogspot.com/

Mostro alguns publicados por eles:

Haiku Alívio

Manhã cedo
Abrem-se os olhos e
Vê-se


Khaiku

Bate leve levemente
com o rabo
no cimente.


Haiku Lavado

O seu maior
atributo era lavar-se
no aqueduto.

Irreverentes, não?

Eu procuro escrever para me entreter e entreter os leitores. É meu modo. Procuro aprender com os mestres nisso.

Me desculpe se vc acha diferente. Eu respeito. E espero que não se aborreça por isso.
Posso indicar a Mestra Débora Novaes de Castro [http://www.haicai.com.br/] onde ela coloca, entre outras coisas que "Titulação - Não há titulação no haicai oriental; no ocidental, latino-americano ou brasileiro pode haver ou não."
Em Portugal, por um outro exemplo, é mais comum os haicais titulados.
Nos Estados Unidos, mais um outro exemplo, há versos em números variados.
Eu respeito as pessoas que querem se ater à origem japonesa. Mas acontece que além da linguagem ser diferente, a grafia é totalmente diversa da grafia ocidental.
If you want in English, vc pode acessar: http://www.toyomasu.com/haiku/ , se considerar adequado.

Se você ama haicais, recomendo o artigo do Marcelo Spalding (Digestivo Cultural, conhece? É muito bom!) onde ele está indicando a leitura do livro "Flauta de Vento" do mestre sino-brasileiro Teruko Oda [ http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=1743 ].
No modo mais rígido, formalista, há que se ater aos Dez Mandamentos dessa tendência.
[Ora, os Dez Mandamentos que posso me ater, já que me foram ensinados desde a infãncia (que na verdade nem são Dez, leiam a Bíblia que é sempre bom) são os da Lei de Deus e é opção minha.]
Como gosto também do Guilherme de Almeida, prefiro a esse do que aqueles, mas é uma questão de gosto pessoal.
Evidente que não quero polemizar, até porque não estamos aqui para isso, não é mesmo? O que quero é me explicar, do porquê, minhas razões de fazê-lo numa tendência, digamos, mais com cara de Brasil.
E, como fica claro, assim como respeito os poetas que optam pelo formalismo sino-brasileiro, do mesmo modo, gosto de ser respeitado na minha opção milloriana, mais guilherminiana. Assim, creio, mais brasileira.
É minha opção.
Quando publiquei a "poetrix" Nomes de Haicais, acreditei que estava sendo claro nisso. [Cada qual na sua preferência, é isso e mais:eu respeito!, o que quer dizer que a recíproca deve ser verdadeira]
Abaixo o texto:

não numero haicais
acho digno dar título
referência de círculo
"íntimos se nominais"

Aliás, numerar
é entitular...

é meu proveito
mas cada qual
no seu grau
tem um jeito

eu respeito.

Abraços fraternos

Joseph Shafan


Eu fico pensando se eu quiser escrever, por exemplo, poesia de trás pra diante, e o leitor gostasse, será que alguém iria reclamar? Se, num rondó eu quiser inverter a posição das quintilhas com os tercetos, colocando o refrão no início, será que seria criticado na forma? E, se amanhã ou depois, um "louco" qualquer se dispor a realmente fazer isso e, na sequência, se criar uma corrente que defina isso como genialidade, um novo modernismo, digamos, talvez ninguém critique mais. Poesia, como sabemos, é palavra originada do grego poiesis, criação, pelo latim poesis. Logo, também o sabemos, fazer poesia é criar. Assim, criação não pode ser cerceada. Senão deixa de ser criação. Assim deixa de ser poesia.

Lembretes da Constituição da República Federativa do Brasil:

Art 5º - II - ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude da lei;
Art. 5º - IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;
Art.5º - IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;
Art 5º - XXVII - aos autores pertence o direito exclusivo de utilização, publicação ou reprodução de suas obras, transmissível aos herdeiros pelo tempo que a lei fixar.


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(Copyright © 2005 A.José C.Coelho. Todos os direitos reservados.)

Joseph Shafan

Publicado no Recanto das Letras em 03/12/2005

 

Últimos comentários

04/01/2006 14h26 - Débora Novaes de Castro

Caro Joseph: Agradeço sua menção ao site www.haicai.com.br, sob nossa coordenação,ao comentar a liberdade com que se constrói os poemas haicais em todo o mundo, especialmente em nosso país. A nossa tese de mestrado O HAICAI NO BRASIL: Comunicação & Cultura,Puc-SP,abril/2004, procura mostrar o que se tem produzido em nosso país, tendo em foco os modelos da síntese poética - não defendemos este ou aquele modelo - tão somente mostramos as escolas, estilos ou posturas: a oriental, guilherminiana e moderna ou livre. DNC,autora, escreve nos três estilos. Quanto à titulação mencionada em seu texto ao se referir a nós, depende de que modelo estamos nos orientando para a criação do novo haicai,assim também para as rimas. O importante é que seja um "instante especial" flagrado pela sensibilidade do poeta, colhido no momento único do seu acontecer,e obedecendo-se a parâmetros especiais como o número de versos, vislumbre, escolas, entre outros para que realmente seja um haicai. Finalizando, costumamos dizer que "o haicai canta e encanta seuscriadores, pesquisadores e apreciadores. Parabéns pelo texto Débora Novaes de Castro www.haicai.com.br 4 de jan.2006

29/12/2005 11h05 - valeria

Lendo toda essa polêmica , onde me sobressai mas que tudo uma fina arrogância do "entendido no estilo" me vem a lembrança a poesia simples de Mario Quintana...onde a beleza do que escrevia nem precisava de explicações.

03/12/2005 18h35 - Charlles Nunes

Caro Shafan: Seu texto é extremamente esclarecedor. Continue assim, enriquecendo nossa literatura com suas contribuições. É muito bom ter como amigo alguém que se ocupa em indicar bons caminhos aos demais. Aquele Abraço!

03/12/2005 09h38 - Lilipoeta

Concordo com o texto do Emilio. Eu admiro o poeta baiano Goulart Gomes que encontrou um "jeitinho brasileiro" de escrever os poemínimos, dando-lhe o título de POETRIX. Também acredito que cada um deve se expressar da maneira que desejar, desde que respeite a grafia das palavras e não lhe dê títulos que não lhe cabem. Tenho um profundo respeito por aquilo que já foi CRIADO, o que é o caso do HAIKAI e do POETRIX... e se há regras estabelecidas anteriormente para escrevê-los, eu devo respeitá-las. Se a minha inspiração me leva a escrever um poema de quatro versos e que usa o ego como base, então eu não o classifico como haikai... Como disse Emílio, é uma questão de coerência. De qualquer forma, quero deixar muito claro, que ADMIRO suas LETRAS, seus poemas, com títulos ou não, assim como admiro Millor Fernandes, embora não concorde que o que ele fez seja haikai. Desejo muito sucesso em suas letras. beijos daqui

03/12/2005 06h48 - EMILIO CARLOS ALVES

Meu caro Shafan, Muito bom o teu texto. Bem esclarecedor.Concordo com a liberdade que o poeta deve ter para exercitar a sua lira. Até aí, tudo bem.Só não concordo quando as pessoas não guardam um mínimo de coerência para com aquilo que pretendem realizar. Exemplos: sonetos de 15 ou mais versos, haikais de 10 versos, etc.Entendo que se há de seguir um certo padrão e respeito por algumas normas, sob pena de inaugurarmos o reino do caos.Se o poeta preferir compor um poema de 30 versos é livre para fazê-lo, só não diga que fez um haikai, ou compôs uma trova.Um abraço,Emílio.

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